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Ângelo Apolônio ”Poly” – Poly (1977)
Resenha do Álbum
Hoje o Baú de Long Playing nos leva ao encontro de um de nossos maiores instrumentistas (alias multi-instrumentistas: Ângelo Apolônio, o Poly (São Paulo, 1920-idem, 1985). Ele demonstrava habilidade com as
cordas desde os dez anos de idade, tocando, vejam só: violão, cavaquinho, bandolim, banjo, contrabaixo, viola e guitarra havaiana, ou seja, sete instrumentos! Sua carreira começou na sua Paulicéia natal, na década de 1930, quando ele passou a acompanhar cantores populares de então: Januário de Oliveira, Paraguassu e Arnaldo Pescuma. Compôs sua primeira música em 1939, a valsa “Você”, jamais gravada, com letra de José Roberto Penteado, que, aliás, sugeriu-lhe o nome artístico de Poly (abreviatura de seu sobrenome, Apolônio). Em 1940, a convite de outro multi-instrumentista, Garoto, foi para o Rio de Janeiro atuar em seu regional, nele atuando em rádio e no disco. Em 1944, gravou seu primeiro disco-solo, interpretando à guitarra havaiana os foxes americanos “Deep in the heart of Texas” e “Jingle, jangle, jingle”. Nesse ano, porém, teve de interromper a carreira para lutar como pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália (era a Segunda Guerra Mundial), só retornando quando o conflito terminou, um ano mais tarde. Nessa ocasião, passou uma temporada em Porto Alegre, atuando como violonista do Conjunto Farroupilha, com o qual excursionou pela Europa, Japão e EUA. Voltando ao Brasil, atuou em boates e rádios de sua São Paulo natal, na qual fixou-se em definitivo. Acompanhou com seu conjunto, em gravações, cantores como Demétrius, Walter Levita, Luiz Roberto e Leila Silva. Como instrumentista e professor de música, influenciou, entre outros, o futuro “Mutante” Sérgio Dias Batista. Poly introduziu a guitarra na música sertaneja, acompanhando Raul Torres e Florêncio numa regravação do clássico “Moda da mula preta”, lançada pela Chantecler em 1959. Gravou, como instrumentista-solo, quase 45 discos de 78 rpm e mais de 50 LPs. O que o Baú de Long Playing nos oferece foi gravado na Chororó/Anhembi, em 1977. Nele, o grande Poly revive clássicos da música sertaneja de raiz, e certamente irá surpreender aqueles que só conhecem o sertanejo atual, que, salvo uma ou outra exceção, é feito mais para público urbano, praticamente nada tendo a ver com o que se conhecia antes com essa denominação, fora o canto a duas vozes. Iremos nos deliciar com jóias do quilate de “Saudades de Matão” “Rio de lágrimas” (mais conhecida como “Rio de Piracicaba”, primeiro verso da letra), “Chico Mineiro”, “O menino da porteira”, “Beijinho doce”, “Moda da mula preta”, “Baião da Serra Grande”, “Mágoa de boiadeiro”, “Faz um ano” (originalmente intitulada “Hace un año” e composta pelo mexicano Felipe Valdez Leal) e “João de barro”. Com esta última, aliás, aconteceu um fato curioso: composta por Teddy Vieira e Muibo César Cury (o Barroso da dupla Barreto e Barroso), ela foi gravada em 1955, na RCA Victor, pela dupla Mineiro e Manduzinho. Mas o disco só saiu em março de 56, ocasião em que a morte de Mineiro encerrou a dupla (então com apenas cinco 78 rpm gravados) e “João de barro” não fez nenhum sucesso, que só viria em 1974, na interpretação de Sérgio Reis, motivando regravações como esta do mestre Poly. Seu último trabalho em disco foi o LP de selo Rancho/Polygram “Cabecinha no ombro”, lançado dois anos antes de sua morte, em 1983.
Samuel M. Filho |