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POSTAGEM ESPECIAL DE NATAL
Jose Antonio Cossio – Mi Cristo Roto (Meu Cristo Partido) (1974)
O meu Cristo partido
(…) Mostrei desgosto:
- É pena ser tudo tão caro…
- Caro? Pois quanto me dá então?
Não respondi. Pensava no Cristo. Decidi-me. Tomei-o nas mãos e, adoptando uma absoluta indiferença, perguntei:
- E isto?
Não me atrevi a chamar-lhe Cristo. Estava tão mutilado!… Era quase mais uma coisa que um homem.
- E isto?
Perguntando assim, talvez eu conseguisse um preço mais económico. Mas enganei-me. O antiquário aproximou-se. Pegou no Cristo Partido e exclamou:
- Oh! É uma peça magnífica! Vê-se que tem gosto, Padre, e sabe valorizar as coisas. Pois bem, veja que esplêndida talha, que boa execução!… Este Cristo é, sem dúvida, de um bom escultor. Pelo menos de uma boa escola.
E a verdade é que tinha razão em tudo o que dizia. Estávamos de acordo. Tratei de diminuir os méritos por outro meio.
- Sim, mas está tão partido, tão mutilado… Falta-lhe um braço e uma perna. Nem sequer tem cara.
- Não tem importância, Padre. Aqui ao lado há um magnífico restaurador, meu amigo, que lho deixa como novo. Este Cristo, uma vez restaurado, pode crer, é uma peça de museu.
Exagerava. Tremi. Ia ficar sem Cristo outra vez.
- Bem, e o preço?
Voltou a examiná-lo, a elogiá-lo; acariciava-o entre as mãos. Mas não acariciava Cristo, não; acariciava a mercadoria, que ia converter-se em dinheiro. Aquilo magoou-me ainda mais. Insisti:
- Por quanto o vende?
Hesitou. Fez uma pausa. Olhou o Cristo pela última vez. Fingiu que lhe custava separar-se dele e entregou-mo, num arranque de generosidade, dizendo resignado e dolorido:
- Tome, Padre, leve-o; não é o dinheiro, leve-o. Por ser para si – e note que não ganho nada – três mil pesetas apenas. O senhor leva uma jóia!
Quedei-me de mãos no ar, estendidas e paradas, sem chegar a pegar no Cristo.
- Três mil pesetas? Que disparate! É caríssimo…
E voltei as costas, passando a interessar-me por não sei que objecto, que ficou à minha frente.
- Muito caro, disse? Mas reparou bem no que leva?
- Naturalmente – disse sem me voltar – É caríssimo.
E assim, de costas, começámos, o antiquário e eu, a regatear sobre um Cristo. Ele, para manter a quantia: eu, sacerdote, diminuía os méritos de Cristo para baixar o preço. Estremeci de repente a meio do regateio. Disputávamos o preço de Cristo como se fosse uma simples mercadoria. Estendíamos até Cristo a luta vil da oferta e da procura. E, claro, lembrei-me de Judas. Não era aquilo, também, uma compra e venda de Cristo? Sim, é verdade, de um Cristo de madeira. Mas quantas vezes vendemos e compramos Cristo não de madeira, mas de carne – n’Ele e no nosso próximo!
A nossa vida é, muitas vezes, uma compra e venda de Cristos. Sem dúvida que Judas queria mais e os sacerdotes ofereciam menos. Como eu então. E Judas fingia ir-se embora – como eu – para voltar de novo ao regateio. E os sacerdotes simulavam não se interessar tanto pela compra de Cristo como eu então – para voltarem uma vez mais a insistir no preço. Resultado: o de sempre. Ambos cedemos. E lá concordámos. Como Judas e os sacerdotes judeus. O antiquário, interesseiramente, pedia demasiado para não perder tanto com o desconto já previsto. Por mim, consegui nivelar o preço. E o que perdeu, como sempre, como com Judas, foi Cristo. Acabou desvalorizado, porque das três mil pesetas iniciais, em que fora avaliado, baixou para oitocentas.
*
(…)
*
Para sair desse cerco angustioso, para ficar bem com o meu Cristo Partido e fazê-lo esquecer as suas mutilações, ocorreu-me dizer-lhe:
- É verdade, Senhor, todos nós te havemos mutilado milhões de vezes. Perdoa-nos. Por mim, se o aprovas, tenho um plano…
- Qual?
O meu Cristo interessava-se pela minha proposta. Sentia-me mais tranquilo e sossegado. Tinha conseguido desviar para outro alvo a voz inflexível de Cristo, que denunciava o nosso farisaísmo. E tratei de dar ainda mais importância à minha sugestão. Insisti – que ridículos somos nós, os homens! – para conquistar Cristo e pô-lo do meu lado.
- Tenho um plano, Senhor, que te vai agradar. Trata-se de ti mesmo… Não adivinhas?
- Di-lo de uma vez – atalhou o Cristo Partido. Não queiras envolver-me, como a um simples homem, na rede da lisonja e fraseado. Que te sucedeu? Diz.
- Vou mandar-te restaurar. Não quero, não posso ver-te assim mutilado. Restaurando-te, pensarei que te desagravo por mim e pelos outros. Verás que bem vais ficar. Ainda que o restaurador me leve mil e quinhentas pesetas. Não as tenho, mas procurá-las-ei. Mereces tudo. Custa-me ver-te assim. Amanhã mesmo levo-te à oficina do restaurador. Aquele que está na «Casa do Artista», junto ao «Jueves», onde te comprei. Disse-me que se comprometia a deixar-te perfeito. Verás, Senhor: pôr-te-á um braço novo, talhar-te-á outra perna direita, completará os dedos que te faltam nos pés e nas mãos. Estás crivado de mossas e arranhões. E sobretudo – vais ver – esculpir-te-á um rosto maravilhoso, uma cara de Homem-Deus, para que me olhes e eu te contemple. Restaurar-te-ei para ter um Cristo inteiro, não um Cristo Partido. Ainda que me cobrasse o dobro. Não posso ver-te assim. Dói-me. É a primeira e última noite que estás mutilado, sendo meu. Meu tens que ser e estar completo e perfeito. Não é verdade que aprovas o meu plano, que te agrada?
- Não. Não me agrada – respondeu o Cristo seca e duramente – És igual a todos. Desiludiste-me. E falas demasiado.
Efectivamente, na sua voz ecoava o desengano.
Eu sentia-me egoisticamente mesquinho e culpado. Não soube nem pude retorquir.
Houve uma pausa de silêncio como um poço negro e insondável.
Segurava-o nas mãos e, no entanto, sentia-me infinitamente longe do meu Cristo. Não se ajustavam os nossos pensamentos.
Uma ordem, cortante como um raio, veio quebrar o silêncio angustioso:
- Não me restaures. Proibo-te! Estás a ouvir?
Garanti-lhe, tremendo e perturbado: – Sim, Senhor, prometo: não te restaurarei.
Estava perturbado; nunca pude suspeitar que um Cristo Partido pudesse falar-me com tanta firmeza e energia.
Logo, porém, suavizou a voz e acrescentou, como quem pede uma esmola:
- Obrigado. Peço-te que não me restaures!
Se a ordem anterior me havia aniquilado, a súplica de agora acabava de me conquistar definitivamente.
Só Deus, só um Cristo dispõe desses inclassificáveis tons de voz.
- Não te preocupes, Senhor. Podes estar certo de que nunca mais pensarei em restaurar-te.
- Obrigado – respondeu Cristo, acariciando-me com a sua voz de suave agradecimento. – Obrigado.
O seu tom de voz voltou a dar-me confiança e atrevi-me a perguntar-lhe: – Porque não queres que te restaure? Não te compreendo.
Bem vejo… – replicou um tanto triste.
- Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó?
- É isso que quero: que, vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, porque lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e lhes voltam as costas… Não me restaures! Talvez que, vendo-me assim, te sirva de lição para a dor dos demais.
- Sim, Senhor. Começo agora a compreender. Nunca te restaurarei.
A voz do meu Cristo continuava a ressoar naquela noite de Sevilha, na solidão do meu quarto, como eco de uma velhíssima e eterna queixa.
- Olha: há muitos, muitíssimos cristãos, que se entregam à devoção de beijos, luzes, flores para um Cristo belo, e se esquecem dos seus irmãos, os homens – Cristos feios, partidos e sofredores. Não aceito isso. Agora mesmo, nestes últimos dias da Quaresma e nos próximos da Semana Santa, em todas as cidades espanholas – Sevilha, Valhadolid, Bilbau, Málaga, Madrid, Zamora, Barcelona, Múrcia, Cuenca, em todas – se intensificam as manifestações de carinho por todos os belos Cristos crucificados … Mas isto não basta. Isto de nada vale, se falta o amor ao próximo que sofre, ao irmão pobre, ao Cristo de carne, crucificado e partido.
Pela janela entreaberta do quarto entrava a noite de Sevilha, morna e rescendente a jasmim, envolvendo-nos no seu perfume.
Povoou-se a noite de belíssimos Cristos espanhóis, desfilando entre círios e cravos por todas as ruas de Espanha. Havia um longínquo fundo musical de órgãos, de trombetas, de bandas de música, de fortes cânticos.
A voz do meu Cristo Partido tornou-se ainda mais triste:
- Há muitos cristãos que tranquilizam a sua consciência beijando um Cristo belo, obra de arte e de museu, enquanto ofendem, mutilam ou roubam o pequeno Cristo de carne, que é o seu irmão… Esses beijos repugnam-me e causam-me nojo. Tolero-os e aguento-os, forçado, nos meus pés de imagem talhada em madeira. Ferem-me, porém, o coração. Tendes demasiados Cristos belos, demasiadas obras de arte da minha Imagem Crucificada, demasiados Cristos completos, perfeitos, apolíneos… E estais em perigo de quedar-vos na obra de arte. Um Cristo belo pode ser um perigoso refúgio para vos esconderdes na fuga da dor alheia, tranquilizando ao mesmo tempo a consciência com um falso amor a Deus Crucificado. Por isso deveríeis ter mais Cristos Partidos, mais Cristos Mutilados. Um, à entrada de cada Igreja; um, em cada procissão da Semana Santa, que vos gritasse sempre, com os seus membros partidos e a cara sem formas, a dor e a tragédia da minha segunda Paixão nos meus irmãos, os homens… Por isso, te suplico: não me restaures. Deixa-me Partido. Aguenta-me Partido junto de ti, ainda que amargure um pouco a tua vida. Beija-me Partido!
- Sim, Senhor, prometo. Não haverá força que te arranque de mim.
E um beijo sobre o único pé despedaçado foi o selo da minha promessa.
- «Doravante vou viver com um Cristo Partido».
Texto Retirado do Blogger: Esconderijo (FUGIDIA)
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